Endometriose: o que é importante saber sobre a doença

A endometriose, até pouco tempo atrás, era “algo típico de mulheres mais velhas”… Mas como as estatísticas e os fatos sobre as questões femininas nem sempre são discutidos abertamente, muitas vezes, uma paciente jovem se surpreende ao ser diagnosticada com endometriose no estadiamento IV, que é um nível avançado da doença.

Segundo estimativas do Nepe, Núcleo Interdisciplinar de Ensino e Pesquisa em Endometriose, “essa surpresa da paciente” é lamentável, mas comum. Meninas que começam a sofrer com os sintomas da endometriose na adolescência chegam ao diagnóstico até 12 anos depois, quando muitos estragos já foram feitos ao corpo.

Conversamos com a ginecologista e obstetra, Cris Carneiro (CRM-SP 59.336) sobre a doença visando fazer um alerta à população desavisada de mulheres jovens sobre a endometriose. Confira a entrevista a seguir:

Vamos começar com os sinais e sintomas aos quais as mulheres devem estar atentas. O que é normal? O que é um alerta para a endometriose?

Dra. Cris Carneiro – Uma das mensagens que eu tento passar às minhas pacientes é que as cólicas dolorosas durante a menstruação, que incapacitam meninas / adolescentes / mulheres de participar de atividades normais, não são normais. Cólicas dolorosas e incapacitantes são o sintoma característico da endometriose. Sim, muitas mulheres têm cólicas e desconforto durante a menstruação, mas se elas interferem nas atividades normais, ela precisa ser avaliada por um ginecologista. Além de cólicas dolorosas e incapacitantes, outros sintomas comuns são relações sexuais dolorosas, evacuações ocasionalmente dolorosas e dor ao urinar.

Por que há tantos erros diagnósticos em relação à endometriose?

Dra. Cris Carneiro – O diagnóstico mais comum é classificar a cólica incapacitante como um sintoma normal do período menstrual. A menina fica achando que está exagerando seus sintomas. As mulheres jovens são informadas de que seus sintomas não são reais, em essência, são convencidas que estão à procura de atenção e/ou que têm pouca tolerância à dor (quando na realidade é o oposto). Na adolescência, uma época em que tudo no organismo está mudando e há tantas pressões sociais, esse tipo de abordagem da doença é muito ruim sob o ponto de vista diagnóstico, pois a oportunidade de intervir mais cedo, quando a doença é tratada com mais sucesso, é perdida.

O que acontece se a endometriose não for tratada precoce e adequadamente?

Dra. Cris Carneiro – A endometriose é uma doença progressiva. Se não for identificada e tratada corretamente, a cólica incapacitante pode se agravar, a mulher pode desenvolver uma síndrome de dor crônica, infertilidade e disfunção social real. Estas mulheres podem ter dificuldades para manter postos de trabalho e relações sexuais por se sentirem socialmente isoladas e não compreendidas.

Quais são os tratamentos disponíveis para a doença hoje?

Dra. Cris Carneiro – A coisa mais importante para uma mulher com os sintomas clássicos da doença é encontrar um ginecologista que tenha experiência com endometriose. Isso irá garantir que ela receberá o tratamento adequado e o apoio social necessário. As opções de tratamento são muitas e dependem de cada paciente e do estágio de sua doença. Podemos tratar essa paciente apenas com pílulas anticoncepcionais, como também podemos tratá-la por meio de uma cirurgia mais complexa. O ponto mais importante é que a jovem e / ou sua família tenham informações sobre a endometriose. Porque aí, se ela ou sua família acreditarem que ela tenha sintomas sugestivos de endometriose, ela irá procurar um especialista mais cedo.

Que perguntas uma jovem deve fazer ao seu médico se suspeita da endometriose?

Dra. Cris Carneiro – Primeiro, a paciente deve fazer uma pesquisa antes mesmo de agendar com qualquer médico para se informar sobre a doença. Caso a opção terapêutica recomendada seja uma cirurgia, a paciente precisa perguntar ao médico se ele tem experiência em realizar cirurgias de endometriose. Quantos casos o médico já operou? Será que o médico tem experiência para lidar com a endometriose quando ela atinge o intestino ou a bexiga? Em suma, a paciente deve perguntar sobre a experiência do médico com a doença.

Existem grupos de apoio para mulheres que lidam com essa questão? Como a senhora vê a atuação desses grupos?

Dra. Cris Carneiro – Em diversos países existem associações de mulheres e grupos de apoio que se voltam para a endometriose. No Brasil temos a ABEND – Associação Brasileira de Endometriose e o Gapendi, por exemplo. Esses grupos e associações desenvolvem um papel importante de alerta e informação, principalmente pela Internet. Considero que toda iniciativa destinada a alertar as mulheres sobre a gravidade e a importância dessa doença devem ser valorizadas.

Existem outros pontos sobre a endometriose que a senhora gostaria de destacar?

Dra. Cris Carneiro – De uma maneira geral, a mulher precisa estar atenta aos sinais da doença e deve procurar um médico especialista no tratamento da moléstia. É importante também que a mulher não deixe ninguém minimizar a sua dor, pois, na minha experiência, as mulheres que sofrem desta condição terrível são as pacientes mais resistentes à dor, pois apesar de todo o sofrimento e estresse físico, elas são incrivelmente funcionais, mantém seus empregos, cuidam de seus familiares e amigos e ainda mantém relações sexuais, mesmo sentindo dor o tempo todo. Muitas dessas mulheres funcionam com um nível de dor que incapacitaria a todos nós. Em suma, se a menina/adolescente/mulher tem cólicas incapacitantes, que a impede de levar uma vida normal, ela precisa saber que isso não é normal. Outra coisa que é importante destacar: sexo não deve ser doloroso. Se há dor e cólica incapacitante, a mulher precisa ser avaliada por um especialista em endometriose.

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