Antidepressivos são seguros durante a gravidez?

As mulheres grávidas, geralmente, não medem esforços para dar a seus bebês um início de vida saudável. Elas param de fumar, abandonam a tacinha de vinho, mudam para o café descafeinado, renunciam à aspirina… Dizem não ao sashimi e educadamente recusam o ceviche.

No entanto, elas raramente afastam-se dos populares antidepressivos inibidores seletivos da recaptação da serotonina, como o Prozac e o Zoloft, apesar de um número crescente de estudos associarem a exposição pré-natal a defeitos de nascimento, complicações após o nascimento, atrasos no desenvolvimento e até mesmo ao autismo.

Estimativas americanas apontam que até 14% das mulheres grávidas tomam antidepressivos, e o FDA (Food and Drug Administration) já emitiu fortes advertências de que um deles, a paroxetina (Paxil), pode causar defeitos de nascimento. Não temos um registro semelhante no Brasil.

“Mas a atitude predominante entre os médicos é de que a depressão durante a gravidez é mais perigosa para a mãe e a criança do que qualquer droga possa ser. Agora, um número crescente de críticos está questionando essa suposição”, afirma a ginecologista e obstetra Cris Carneiro (CRM-SP 59.336).

O que os cientistas alegam? Se o antidepressivo, durante a gestação, faz uma diferença tão grande e as mulheres que usam esses medicamentos comem melhor, dormem melhor e cuidam melhor de si mesmas, então seria esperado ver melhores resultados de nascimento entre as mulheres que tomaram a medicação do que entre as mulheres que não tomaram esses medicamentos. Não há evidências que mostrem isso. Pelo contrário, quando se busca dados sobre o tema, só se encontra danos.

Acredita-se que os inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS ou SSRI)  atuam, em parte, bloqueando a reabsorção (ou recaptação) da serotonina, o que altera os níveis deste importante neurotransmissor no cérebro e em outras partes do corpo. Tomado por uma mulher grávida, as drogas atravessam a barreira placentária, atingindo o feto.

“A serotonina é um neurotransmissor. A partir do cérebro, sinaliza aos neurônios para onde ir, o que fazer e como se desenvolver. Ele desempenha um papel ativo no coração e no intestino e desempenha um papel importante na formação dos pulmões, atuando basicamente em todos os processos de desenvolvimento do bebê”, explica a ginecologista.

Três novos estudos têm aumentado as preocupações sobre os efeitos no desenvolvimento de longo prazo dos bebês. Pesquisadores da Universidade Johns Hopkins informaram, em abril, que as crianças com autismo apresentavam quase três vezes mais probabilidades de terem sido expostas aos SSRIs, antes do nascimento, do que crianças com o desenvolvimento típico, sem a doença.

Pesquisadores de Harvard ligaram a exposição pré-natal aos antidepressivos desta classe a quase duas vezes o risco de déficit de atenção e hiperatividade em crianças. Os pesquisadores também descobriram que as crianças expostas às drogas eram mais propensas a ter transtornos do espectro do autismo, mas depois de ajustar os dados para explicar a psicopatologia das mães, os cientistas concluíram que o aumento não foi estatisticamente significativo.

Um grande estudo norueguês, informou em abril, que analisou um registro de mais de 51.000 bebês e descobriu que o uso prolongado de SSRIs, durante a gravidez, foi associado a uma competência linguística inferior em 3 anos, um efeito independente da depressão das mães.

Os obstetras há muito se preocupam com o fato de que as mulheres deprimidas podem estar em maior risco de dar à luz prematuramente, o que coloca em risco os bebês, aumentando o risco de problemas de saúde a curto e a longo prazo. “ Mas três grandes meta-análises publicadas, no ano passado,  revisaram os dados de estudos anteriores e todas concluíram que as mulheres que tomam SSRIs  são mais propensas a dar à luz prematuramente do que as mulheres deprimidas que não fazem uso dessa medicação”, informa a médica.

Nascimentos prematuros não são os únicos riscos associados aos antidepressivos. Bebês expostos aos SSRIs, no pré-natal, são mais propensos a nascer com defeitos congênitos do coração, outros defeitos congênitos raros, pé torto e uma doença pulmonar grave chamada hipertensão pulmonar persistente.

Assim como os bebês nascidos de viciados em drogas, os recém-nascidos expostos aos SSRIs podem apresentar sintomas de abstinência. Um estudo descobriu que os SSRIs perturbam o sono REM fetal, o sono profundo que é importante para o crescimento saudável.

Outro estudo concluiu que os bebês de mães tratadas com esses medicamentos também apresentaram menores escores de Apgar, uma medida de bem-estar do recém-nascido. E outro estudo revelou que essas crianças eram mais propensas a ter baixo peso.

“Obstetras e psiquiatras temem que a onda de novas descobertas impeça algumas mulheres de procurarem ajuda, caso necessitem. A conclusão desses estudos acaba assustando as mulheres, afastando-as do tratamento. Mesmo diante dos riscos, para um subconjunto de pacientes grávidas, a gravidade da depressão ou da ansiedade pode tornar muito difícil para elas cuidarem de si mesmas e/ou de uma criança. Há casos em que a gravidade da doença pode ser tamanha que coloca a vida da própria gestante em risco, se ela ficar sem tratamento durante a gravidez”, diz Cris Carneiro.

Muitos especialistas acham que é hora de rever o uso generalizado desses medicamentos em gestantes. “Considerar os SSRIs  como a única opção de tratamento não é aconselhável. As mulheres que estão grávidas ou estão planejando uma gravidez e querem suspender essa medicação deve contar com a supervisão do obstetra e do psiquiatra. Devem também ser orientadas a considerar as opções de tratamento sem drogas, incluindo aconselhamento regular e frequente, exercícios físicos, meditação, acupuntura e terapia de luz”, defende a obstetra.

 

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