SOP: o distúrbio hormonal mais comum entre as mulheres

Quando ouvimos falar que uma mulher está tendo problemas para engravidar, nossos pensamentos geralmente buscam os culpados usuais, incluindo: idade avançada, miomas, endometriose ou trompas de falópio bloqueadas. “Mas a realidade é que muitos casos de infertilidade são causados por problemas de ovulação. Se uma mulher não ovula, não há nenhum óvulo para ser fertilizado. E a causa mais comum de problemas ovulatórios é pouco conhecida – e frequentemente não diagnosticada –, um problema de saúde chamado de Síndrome dos Ovários Policísticos ou SOP”, diz a ginecologista e obstetra Cris Carneiro (CRM-SP 59.336).

O que é SOP?

A SOP é uma condição hereditária. É o distúrbio hormonal mais comum entre mulheres em idade reprodutiva, afetando cerca de 5-10% de todas as mulheres. “A doença pode causar infertilidade por interferir no equilíbrio hormonal necessário para os óvulos amadurecerem e estarem prontos para serem fertilizados no tempo certo. Cerca de 60-70% das mulheres com a SOP são obesas e estão sujeitas a um maior risco de desenvolvimento de diabetes (sem tratamento, cerca de 50% das mulheres com SOP serão diabéticas ou pré-diabéticas aos 40 anos), doença cardíaca e câncer endometrial”, alerta a médica.

O sintoma mais típico da SOP é a falta de menstruação regular, mas também há um conjunto de sinais e sintomas indicadores que podem sugerir o diagnóstico:

  • Exames de sangue podem sugerir desequilíbrios hormonais;
  • Excesso de pêlos no rosto, costas, peito ou no abdômen;
  • Acne;
  • Queda de cabelo no alto da cabeça;
  • Tendência a acumular gordura na barriga.

O que causa a SOP?

“A relação entre SOP e fertilidade já é conhecida há mais de 100 anos, mas apenas na década de 1990, os pesquisadores começaram a compreender que ‘o marco zero’ para a SOP, na maioria das mulheres, é a resistência à insulina, o mesmo problema hormonal que, em seu estágio mais avançado, causas diabetes tipo 2”, explica a obstetra.

Esta descoberta forneceu o insight sobre como tratar as mulheres com SOP, além da abordagem histórica de tratar os sintomas: pílulas anticoncepcionais para regular o período menstrual; tratamento a laser ou medicamentos para o crescimento dos pêlos; consultas periódicas com o dermatologista para gerenciar a acne; e, é claro, uma dieta para perda de peso.

Assim como os hormônios reprodutivos, a insulina é um hormônio com ação de longo alcance. A insulina é produzida pelo pâncreas, e sua principal função é regular as taxas de glicose e/ou açúcar no sangue, após a ingestão de carboidratos. A quantidade de carboidratos ingerida determina a quantidade de insulina que é secretada e mantém a glicose em níveis normais no sangue. “No caso de resistência à insulina, o pâncreas libera insulina no sangue, mas as células resistem à essa ação, fazendo com que o pâncreas tenha que compensar essa resistência, trabalhando horas extras para bombear quantidades excessivas de insulina. Com o tempo, essa reação pode levar ao ‘esgotamento’ do pâncreas, que não consegue produzir insulina suficiente para  vencer essa resistência, conduzindo a um aumento gradual nos níveis de glicose no sangue e ao aumento do risco de diabetes”, explica Cris  Carneiro.

Do ponto de vista reprodutivo, o excesso de insulina no organismo também tem a capacidade de estimular a produção do hormônio masculino testosterona nos ovários, um lugar onde o estrogênio deveria predominar para induzir a ovulação. “São estes hormônios masculinos que causam o crescimento de pêlos faciais; estragos nos folículos pilosos no topo da cabeça (que leva à perda de cabelo no mesmo padrão masculino); inflamação da acne; e depósitos de gordura no abdômen (distribuição de gordura mais comum no corpo masculino)”, afirma a ginecologista.

SOP é tratável

Devido à sua origem genética, a SOP não tem cura, mas é tratável. “A metformina, um medicamento para diabetes que melhora a sensibilidade à insulina, é usada frequentemente, particularmente em mulheres que tentam engravidar. As pílulas anticoncepcionais e outros medicamentos também podem ser prescritos para ajudar a controlar os sintomas, mas, como muitos problemas de saúde modernos, mudanças na dieta e no estilo de vida são fundamentais. Estar acima do peso e ser sedentária agravam a resistência à insulina, piorando os sintomas da SOP e aumentando o risco de infertilidade e outras complicações de saúde”, alerta Cris Carneiro.

Adotar estratégias saudáveis que visam vencer a resistência à insulina  é essencial para a gestão dos problemas hormonais subjacentes decorrentes da SOP e para o alívio de seus sintomas. Confira as dicas da ginecologista Cris Carneiro:

  • Como a ingestão de carboidratos dita a resposta pós-refeição de glicose / insulina, é recomendável limitar doces e incluir na dieta porções de carboidratos não refinados, como grãos integrais, frutas, vegetais ricos em amido, leite desnatado e iogurte sem açúcar, distribuídos ao longo de refeições e lanches menores;
  • Carboidratos acompanhados de proteína magra e um pouco de gordura saudável (por exemplo, bolachas de grãos integrais com manteiga de amendoim ou frango grelhado e legumes com arroz integral) podem ajudar a digestão dos carboidratos e aumentar a sensação de saciedade após refeições e lanches;
  • Troque as gorduras trans e saturadas por gorduras monoinsaturadas saudáveis, como o azeite de oliva e/ou óleo de canola, amendoim, nozes, sementes e abacates. Aumente a ingestão de gorduras com ômega-3, que são substâncias anti-inflamatórias, presentes em peixes gordos (salmão, cavala, arenque, truta do lago , sardinha e atum voador) ou em cápsulas de óleo de peixe;
  • Faça exercícios físicos com regularidade. Os exercícios são o sensibilizador natural da insulina. O ideal são pelo menos 30 minutos, na maioria dos dias, com uma meta de longo prazo de 60 minutos.

“A infertilidade é uma grande preocupação para as mulheres com SOP, mas sob os cuidados conjuntos de um endocrinologista e de um ginecologista, muitas são capazes de conceber. Um nutricionista também pode ser de grande ajuda para fazer as mudanças dietéticas necessárias para gerenciar a SOP da forma mais natural possível”, observa a ginecologista.

Publicado em Notícias e marcado , , , , , .

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *