Importância da vacinação das meninas contra o HPV

Desde o dia 10 de março, o Ministério da Saúde está convocando as meninas entre 9-11 anos para tomarem a vacina contra o Papiloma Vírus Humano (HPV). A expectativa do órgão é a de vacinar 4,94 milhões de meninas em 2015. Somando este grupo etário ao de adolescentes de 11-13 anos, vacinadas no ano passado, essa pode ser a primeira geração praticamente livre do risco de morrer de câncer de colo de útero. A meta é vacinar, em parceria com as secretarias estaduais e municipais da saúde, 80% do público-alvo.

O público-alvo da vacinação serão as adolescentes das seguintes idades:

ANO
FAIXA ETÁRIA
PÚBLICO-ALVO
META DE VACINAÇÃO(80% DO PÚBLICO ALVO)
2014
11-13 anos
5,2 milhões
4,2 milhões
2015
09-11 anos
5,2 milhões
4,2 milhões
2016
09 anos
1,6 milhão
1,3 milhão

Fonte: Ministério da Saúde

“Mesmo a vacina contra o HPV sendo extremamente segura, ainda encontramos muita resistência a ela. São muitas as dúvidas dos pais, os boatos, ‘as lendas urbanas’… Os profissionais de saúde precisam dedicar grande parte do seu tempo esclarecendo os mitos relacionados às vacinas, incluindo a do HPV. Nesse processo de disseminação de informações corretas, a parceria do Ministério da Saúde com as escolas é fundamental. Precisamos contar com a colaboração dos pais e dos educadores para conseguir alcançar a meta de vacinação contra o HPV, terceiro tipo de câncer que mais mata as mulheres no Brasil”, afirma a ginecologista e obstetra Cris Carneiro (CRM-SP 59.336).

A vacina está disponível nas 36 mil salas de vacinação espalhadas pelo país.  “Para receber a dose, basta apresentar o cartão de vacinação e o documento de identificação. Cada adolescente deverá tomar três doses para completar a proteção. A segunda deve ser tomada seis meses depois, e a terceira, cinco anos após a primeira dose”, explica a médica.

Dúvidas comuns 

Desde a disponibilização da vacina contra o HPV, a ginecologista Cris Carneiro vem relacionando as dúvidas mais frequentes sobre o tema que ela recebe quase que diariamente, via redes sociais, e-mail e pessoalmente, durante suas consultas.  Confira, a seguir, “o top 17” das dúvidas mais frequentes sobre a vacinação contra o HPV, segundo a médica:

  • No Brasil existem dois tipos de vacina HPV. Qual a diferença entre elas?

Cris Carneiro – Até o momento foram desenvolvidas e registradas duas vacinas HPV. A vacina quadrivalente recombinante, que confere proteção contra HPV tipos 6, 11, 16 e 18, e a vacina bivalente que confere proteção contra HPV tipos 16 e 18. A vacina quadrivalente está aprovada no Brasil para prevenção de lesões genitais pré-cancerosas do colo do útero, de vulva e de vagina em mulheres, e anal em ambos os sexos, relacionadas aos HPV 16 e 18, e verrugas genitais em mulheres e homens, relacionadas aos HPV 6 e 11. A vacina bivalente está aprovada para prevenção de lesões genitais pré-cancerosas do colo do útero em mulheres, relacionadas aos HPV 16 e 18. Conforme registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), essas vacinas têm indicações para faixas etárias distintas. A vacina quadrivalente tem indicação para mulheres e homens entre 9 e 26 anos de idade, e a vacina bivalente tem indicação para mulheres a partir de 9  anos, sem restrição de idade. O prazo de validade do produto quadrivalente é de três anos, enquanto o prazo de validade da bivalente é de quatro anos.

  • Como a vacina HPV funciona?

Cris Carneiro – Estimulando a produção de anticorpos específicos para cada tipo de HPV. A proteção contra a infecção vai depender da quantidade de anticorpos produzidos pelo indivíduo vacinado, a presença destes anticorpos no local da infecção e a sua persistência durante um longo período.

  • A vacina HPV pode causar infecção pelo vírus? Como ela é feita?

Cris Carneiro – Não. No desenvolvimento da vacina quadrivalente conseguiu-se identificar a parte principal do DNA do HPV que o codifica para a fabricação do capsídeo viral (parte que envolve o genoma do vírus). Depois, usando-se um fungo (Sacaromices cerevisiae), obteve-se apenas a “capa” do vírus, que em testes preliminares mostrou induzir fortemente a produção de anticorpos quando administrada em humanos. Essa “capa” viral, sem qualquer genoma em seu interior, é chamada de partícula semelhante a vírus (em inglês, vírus like particle – VLP). O passo seguinte foi estabelecer a melhor quantidade de VLP e testá-la em humanos, na prevenção de lesões induzidas por HPV. Para que não haja dúvidas sobre o poder não infeccioso das VLP, imagine-se o seguinte: um mamão inteiro, com um monte de sementes (material genético) no seu interior, ao cair em um terreno fértil originará um (ou mais) mamoeiro. Mas, se todas as sementes forem retiradas do interior do mamão, mesmo que plantado em um bom terreno, jamais nascerá um pé de mamão. No caso das VLP, elas imitam o HPV, fazendo com que o organismo identifique tal estrutura como um invasor e produza contra ele um mecanismo de proteção.

  • A vacina é oferecida no SUS?

Cris Carneiro – Sim. A vacina HPV é ofertada para adolescentes entre 9 e 13 anos de idade, nas unidades básicas de saúde e também em escolas públicas e privadas, de forma articulada com as unidades de saúde de cada região. No entanto, a implantação será gradativa. Em 2014, a população-alvo da vacinação contra HPV era composta por adolescentes do sexo feminino, na faixa etária de 11 a 13 anos. Em 2015, serão vacinadas as adolescentes na faixa etária de 9 a 11 anos e, a partir de 2016, serão vacinadas as meninas de 9 anos de idade. No caso da população indígena, a população-alvo da vacinação é composta por meninas na faixa etária de 9 a 13 anos, no ano da introdução da vacina (2014) e de 9 anos de idade do segundo ano (2015) em diante.

  • Qual vacina HPV é oferecida no SUS?

Cris Carneiro – O Ministério da Saúde adquiriu a vacina quadrivalente papilomavírus humano (recombinante) composta pelos tipos HPV 6, 11, 16 e 18. A produção nacional da vacina HPV será resultado da parceria para transferência de tecnologia entre o laboratório público Instituto Butantan e o laboratório privado Merck Sharp Dohme (MSD), detentor da tecnologia.  Estudos demonstram que a eficácia da vacina para as lesões intraepiteliais cervicais de alto grau associadas ao HPV 16 é de 96%, e para as lesões associadas ao HPV 18 em meninas sem contato prévio com HPV é de 90%. É importante esclarecer que na rede pública só estará disponível a vacina quadrivalente.

  • Por que o Ministério da Saúde estabeleceu a faixa etária de 9 a 13 anos para a vacinação? 

Cris Carneiro – Nas meninas entre 9 e 13 anos não expostas aos tipos de HPV 6, 11, 16 e 18, a vacina é altamente eficaz, induzindo a produção de anticorpos em quantidade dez vezes maior do que a encontrada em infecção naturalmente adquirida em um prazo de dois anos. A época mais favorável para a vacinação é nesta faixa etária, de preferência antes do início da atividade sexual, ou seja, antes da exposição ao vírus. Estudos também verificaram que nesta faixa etária a vacina quadrivalente induz melhor resposta quando comparada em adultos jovens, e que meninas vacinadas sem contato prévio com HPV têm maiores chances de proteção contra lesões que podem provocar o câncer uterino.

  • Quantas doses são necessárias para a imunização?

Cris Carneiro – O esquema completo de vacinação é composto de três doses. O esquema normal da vacina (0, 2 e 6 meses) é 1ª dose, 2ª dose após dois meses e 3ª dose após seis meses. No entanto, o Ministério da Saúde adotará o esquema estendido (0,6 e 60 meses): 1ª dose, 2ª dose seis meses depois, e 3ª dose após cinco anos da 1ª dose.

  • A vacina é administrada por via oral ou é injeção?

Cris Carneiro – É administrada por via intramuscular – injeção de apenas 0,5 ml em cada dose.

  • Meninas que já tiveram diagnóstico de HPV podem se vacinar?

Cris Carneiro – Sim. Existem estudos com evidências promissoras de que a vacina previne a reinfecção ou a reativação da doença relacionada ao vírus nela contido.

  • Em quanto tempo são esperados os efeitos da vacinação na redução das lesões, da incidência do câncer do colo de útero e na mortalidade pela doença?

Cris Carneiro – Os efeitos na redução da incidência do câncer do colo de útero e da mortalidade pela doença serão observados em longo prazo, em torno de dez a quinze anos após o início da vacinação. No caso das verrugas genitais, que possuem período de incubação curto, é possível verificar o efeito em menor tempo. Na Austrália, país que implantou a vacina HPV quadrivalente em 2007, após quatro anos foi observada redução significativa das verrugas genitais, com seu quase desaparecimento em mulheres menores de 21 anos.

  • Alguns pesquisadores defendem a vacinação de meninos. Por que o Ministério da Saúde não incluiu os homens na estratégia de vacinação?

Cris Carneiro – Como o objetivo desta estratégia de vacinação é reduzir casos e mortes ocasionados pelo câncer do colo de útero, a vacinação será restrita ao sexo feminino. Estudos comprovam que os meninos passam a ser protegidos indiretamente com a vacinação no grupo feminino (imunidade coletiva ou de rebanho), havendo drástica redução na transmissão de verrugas genitais entre homens após a implantação da vacina HPV como estratégia de saúde pública.

  • É necessário fazer o exame para pesquisa de HPV antes de tomar a vacina?

Cris Carneiro – Não. A realização dos testes de DNA HPV não é condição prévia ou exigência para a vacinação.

  • A proteção dura a vida toda?

Cris Carneiro – A duração da imunidade conferida pela vacina ainda não foi determinada, principalmente pelo pouco tempo em que é comercializada no mundo (2007). Até o momento, só se tem convicção de 9,4 anos de proteção. Na verdade, embora se trate da mais importante novidade surgida na prevenção à infecção pelo HPV, ainda é preciso aguardar o resultado dos estudos em andamento em mais de 20 países para delimitar qual é o seu alcance sobre a incidência e a mortalidade do câncer do colo de útero, bem como fornecer mais dados sobre a duração da proteção e necessidade de dose(s) de reforço.

  • A vacinação contra HPV substituirá o exame de Papanicolau?

Cris Carneiro – Não. É importante lembrar que a vacinação é uma ferramenta de prevenção primária e não substitui o rastreamento do câncer do colo de útero em mulheres na faixa etária entre 25 e 64 anos. Assim, as meninas vacinadas só terão recomendação para o rastreamento quando alcançarem a faixa etária preconizada para o exame Papanicolau e já tiverem vida sexual ativa. É imprescindível manter a realização do exame preventivo (exame de Papanicolau), pois as vacinas protegem apenas contra dois tipos oncogênicos de HPV, responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer do colo de útero. Ou seja, 30% dos casos de câncer causados pelos outros tipos oncogênicos de HPV vão continuar ocorrendo se não for realizada a prevenção secundária, ou seja, pelo rastreamento (exame Papanicolau).

  • Mesmo vacinada, será necessário utilizar preservativo durante a relação sexual?

Cris Carneiro – Sim, pois é imprescindível manter a prevenção contra outras doenças transmitidas por via sexual, tais como HIV, sífilis, hepatite B, etc. Uma pessoa vacinada ficará protegida contra alguns tipos de HPV contidos na vacina: na vacina bivalente contra os HPV 16 e 18 e na vacina quadrivalente contra os HPV 6, 11, 16 e 18. No entanto, existem mais de 150 tipos diferentes de HPV, dos quais 40 podem infectar o trato genital. Destes, 12 são de alto risco e podem provocar câncer (são oncogênicos) e outros podem causar verrugas genitais.

  • A vacina HPV pode ser administrada concomitantemente com outra vacina?

Cris Carneiro – A vacina HPV pode ser administrada simultaneamente com outras vacinas do Calendário Nacional de Vacinação do PNI, sem interferências na resposta de anticorpos a qualquer uma das vacinas. Quando a vacinação simultânea for necessária, devem ser utilizadas agulhas, seringas e regiões anatômicas distintas.

  • A vacina HPV provoca algum efeito colateral (evento adverso)?

Cris Carneiro – A vacina HPV é uma vacina muito segura, desenvolvida por engenharia genética, com a ocorrência de eventos adversos leves como dor no local da aplicação, inchaço e eritema. Em casos raros, pode ocasionar dor de cabeça, febre de 38oC ou mais e síncope (ou desmaios). A síncope mais frequente em adolescentes e adultos jovens é a síncope vasovagal, particularmente comum em pessoas com alguma particularidade emocional. Geralmente, há algum estímulo desencadeante como dor intensa, expectativa de dor ou um choque emocional súbito. Vários fatores, tais como jejum prolongado, medo da injeção, locais quentes ou superlotados, permanência de pé por longo tempo e fadiga, podem aumentar a probabilidade de sua ocorrência. É importante ressaltar que a ocorrência de desmaios durante a vacinação contra HPV não está relacionada à vacina especificamente, mas sim ao processo de vacinação, que pode acontecer com a aplicação de qualquer produto injetável (ou injeção).

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